No dia 3 de abril, às 21h30, a blackbox do gnration será palco de uma experiência artística intensa e visceral. Inserida no Ciclo Contrapeso da Companhia de Dança Arte Total, a performance FILM, dirigida pelo encenador Bruno Bravo, propõe uma viagem imersiva inspirada no único guião cinematográfico escrito por Samuel Beckett. Com a música envolvente de Miguel Pedro, Rafael Machado, Jorge Coelho e Rui Leal, e a performance arrebatadora de Lea Siebrecht, esta obra desafia os limites entre presença e ausência, ilusão e identidade.
Um espetáculo para nos questionarmos
No escuro quase palpável, a tensão cresce como um murmúrio antes da tempestade. A primeira batida vibra no espaço como um eco de algo que se tenta recordar. A música de Miguel Pedro, Rafael Machado, Jorge Coelho e Rui Leal não é apenas som; é pulsação, vibração que atravessa o corpo e se aloja nos ossos. As sombras projetadas recortam silhuetas em movimento – são corpos ou memórias? A dança de Lea Siebrecht desafia a perceção, desenhando contornos fugidios entre presença e ausência. Cada gesto é um suspiro, cada pausa, um abismo. Cada movimento parece programado para evitar o encontro fatal com um espelho, um olhar curioso ou qualquer presença que o defina.
Neste jogo de luz e sombra, de ser e não ser, os olhos do público tornam-se cúmplices da cena. O que vemos existe porque é visto, ou apenas porque acreditamos que sim? A teoria do imaterialismo de Berkeley ecoa na mente enquanto a figura em palco luta contra o próprio reflexo, tentando escapar à sua imagem como se dela dependesse a própria existência. Mas há fuga possível de nós mesmos? Som e silêncio, luz e sombra, presença e apagamento coexistem num jogo de tensões, desafiando o espectador a confrontar a sua própria identidade e consciência.
Uma experiência existencialista para ser sentida
FILM é uma experiência para ser sentida. O espaço, denso e carregado, respira em uníssono com a peça. O silêncio não é ausência, mas sim a presença de algo maior, algo que se instala na mente e na pele. Cada fragmento desta experiência convida à contemplação e ao questionamento. Não há respostas fáceis – apenas a sensação visceral de estar imerso num limiar entre o real e o ilusório.
FILM não é uma peça que se vê; é uma peça que se sente. No final, há algo diferente na forma como se percebe o mundo – uma consciência inquietante de que ser e parecer talvez sejam apenas duas faces de uma mesma ilusão.
Mais do que uma experiência é um espelho voltado para nós, espectadores: se ninguém nos vê, ainda somos reais? Assim como a personagem E de Beckett, somos confrontados com a nossa própria interioridade, num jogo onde nem sempre se pode escapar ao olhar do outro – ou ao próprio olhar.

